A sessão se inicia por volta 18h30, em uma casa modesta com entrada franqueada ao público, cujo acesso se dá por um portão. À esquerda de quem entra, vê-se uma livraria e à direita um corredor. Entre eles vislumbra-se um amplo salão com janelões e bancos alinhados. Ao fundo uma mesa retangular apoiada em um tablado e cadeiras, e um quadro-negro que a ela se sobrepõe. Chega-se até aquela por portas laterais. Há murais com legendas de encorajamento encabeçadas por espíritos ilustres, muito conhecidos. Às 19 horas um homem caminha pelo corredor e se adentra ao recinto em passadas curtas. Não fosse pela nobre missão que lhe foi confiada, não se distinguiria de seus iguais. Acomoda-se numa extremidade da mesa e entre as palmas das mãos, o semblante se apoia. Ao seu derredor lápis cuidadosamente apontados e resmas de papel almaço. Pessoas fazem explanações do Evangelho com explicações pertinentes e relevantes. Aos que comparecem, figuras nem sempre espíritas, mas também de outros credos e igrejas, porque as cartas não são privilégios delas. Faz-se silêncio no recinto, ouvem-se músicas suaves, a maioria de repertório clássico. Absorto pega o estilete de grafita em uma das mãos e apoiado nas folhas segue rápido e imprime uma escrita, à semelhança de notas taquigráficas. Preenchida uma, outra se lhe segue que lhe vão sendo repassadas por um membro do grupo. Às vezes o lápis para, mas em poucos segundos volta a estampar no papel linhas que formam o contexto de tão inusitadas cartas, que vão formando cadernos cuidadosamente separados um do outro. No verso deles estão carimbados o local e dia em que foram redigidos. O procedimento se estende, quase sempre, por mais de 45 minutos. Após o que desconcentrado coloca os óculos que permitem lê-las, mas antes sorve a água de um copo, dando a nítida impressão de que o faz a fim de lubrificar as cordas vocais. Com voz roufenha inicia a leitura: “Querida mãezinha...”, e os vocábulos formam frases e períodos, que provocam choro, aqui, ali e em todo o ambiente apinhado de gente, pois mães e pais, sôfregos por notícias de seus entes queridos que povoam o outro lado da vida: o mundo espiritual. Há uma espécie de catarse. Tamanha são as evidencias das mensagens recebidas, rosário de nomes, de pessoas que estão no além-túmulo, detalhes apenas conhecidos pelos mais íntimos, referências a lugares nem sempre imediatamente identificáveis, mas que posteriormente são reconhecidos por membros da família do comunicado. O fenômeno não só existe como encontra explicação confirmada por estas missivas; hoje já não se trata de um mistério insondável, muito ao contrário, a morte nada mais é que uma ponte luminosa entre dois mundos. Enfim, encerra-se a sessão. Os que tiveram a felicidade de receber uma comunicação, buscam-na gravada em fita cassete, acompanhada da carta psicografada. Os presentes fazem filas, querem abraçar o responsável por tão sublime tarefa e o médium não se furta ao aconchego do abraço amigo, de posar para uma foto, a pôr sua assinatura em livros, cujo conteúdo, em sua maioria, são epístolas recebidas no curso do tempo pelas faculdades mediúnicas. O médium que exerce seu mister no Centro Espírita, “Aurélio Agostinho”, é Celso de Almeida Afonso, um homem de Deus, humilde, pois reconhece sua insignificância perante o Criador.
Hugo de Carvalho Ramos é membro do Instituto dos Advogados de Minas Gerais |
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